“Os lobos perdem os dentes, mas nunca a sua natureza.”

O contraste complementar é das imagens mais apreciáveis de se ver. Muitas das vezes consegue puxar o humor e o caricato. Neste caso, o contraste por luminosidade de Goethe não estava compensado, não havia portanto uma proporção determinante em equilíbrio. Já vamos perceber por quê.

Tal como matilhas de lobos ibéricos vegetarianos numa capoeira, não deixam de ser lobos por muito que se esforcem…

Recentemente presenciei mais um tipo de comportamento absolutamente fascinante do espécime humanóportuguês.

Apresentava-me eu na gloriosa fila dos derrotados, dos perdedores, dos fracassados, dos que nunca triunfaram e nunca alcançaram o sucesso, a fila da maioria dos portugueses portanto. Era uma fila para a entrada de um mercado.

´É um mercado onde as lojas escoam stocks de temporadas passadas a preços de liquidação.´

A fila era grande, não seria de esperar outra coisa. O exclusivo está apenas ao alcance de poucas unidades, representantes, estas, do prestígio como palavra da ilustre elite social. A outra, A Fila, formada pelos Únicos, que comunicavam “interssensorialmente” usando uma linguagem bem mais evoluída do que a minha…apenas por olhares. Rápidos e escrupulosos relances que servem de análise organizada em fases: observação da indumentária, normalmente felina. Análise do rosto, sua respectiva maquilhagem e quantidade e qualidade de metal pendurado em sítios periféricos debruçados e em constante batalha com a gravidade. Abençoado Isaac! A análise é primeiramente ascendente seguido dum relance descendente. Examinação do comportamento para consigo mesma e para com os outros: decibéis debitados, intensidade do tom nasal, implementação dos s´s no final da palavra, tipo de registo utilizado na comunicação com os familiares mais próximos. Normalmente é utilizado um registo formal, embora o tratamento e a lição mais óbvia a implementar seja sempre mais física do que construtiva.

Sentia-me um auténtico, menos intenso e mais cauteloso porém, Steve Irwin, ao observar o comportamento de tal espécime que se esforçava por não revelar o seu instinto primário. Faziam gala, contudo, por encontrar-se em A Fila. Havia aqui uma contradição mental que as fazia nervosas.

´Oferecemos-lhe o conforto de encontrar as melhores lojas e marcas, juntas debaixo do mesmo tecto, com descontos que atingem os 80%. Poupa tempo e muito dinheiro.´

O 80% de desconto, era claramente um dos principais motivos do desequilíbrio. A situação assemelhava-se a um episódio passado muitos anos atrás, quando se apresentaram como catequistas dois canhões de raparigas para nos passarem a sabedoria e as suas lições anteriormente aprendidas. Que não fossem nada perspicazes foi ainda mais aliciante e “desviativo” do principal objectivo da catequese. ´Mas isso agora não interessa nada!´. Diria a sábia loiraça da TVI.

Uma vez já dentro do mercado propriamente dito, o fogo encarcerado no interior do corpo de cada uma, libertou-se de rompante, pelo tempo esperado em lume alto. As estribeiras da compostura e da vida perderam-se numa frenética energia do instinto do aproveitamento do barato feio ou bonito, necessário ou inútil. As mãos entrelaçavam-se de maneira a que se fosse visto de muito alto, parecia estar ali a surgir uma camisola humana feita de têxteis naturais, em que os braços eram as fibras da mesma. Talvez qualquer dia esta gigante camisola, se apresente num gigante mercado, para nós, como um mero medium sized mercado para outros. Era uma autentica batalha fervorosa que ganhava quem apresenta-se uma posição dominante e umas mandíbulas mais fortes.

À minha frente via um retracto às hienas malhadas no instante do seu nascimento, só não apresentavam a singular característica que durante muitos anos fez o homem, até os sábios da Antiguidade, entre os quais Aristóteles, confuso. Estes últimos acreditavam que a hiena malhada era hermafrodita. Um erro compreensível, por motivos biológicos não especificados neste texto.

´No Bengaleiro pode deixar os seus sacos sem custos e com segurança.´

Vi caras, que se vêm na televisão de qualidade, que normalmente se apresentam a ostentar a riqueza e a sua fortuna.

Devo dizer que eu próprio fiquei algo confuso e vago. Senti-me nu na tormenta que se fazia na minha mente. Não cheguei a perceber se o comportamento exibicionista era devido ao comparecimento de tal local, que se assim fosse, parte-se do princípio que este é um lugar “in”. Ou se o comportamento era consequência da elevação de espírito dada pelo instante exclusivo à entrada já anteriormente debatido com veemência. Uma das duas, ou mesmo ambas, são hipóteses plausíveis para o comportamento deste espécime que pelo contrário de outras várias espécies, a tendência da população é aumentar. O risco de estar em vias de extinção não se põe, nem se enquadra nos tempos que correm. Felizmente, para os que se divertem a observar como eu!

FIÓDOR HILÁRIO

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One response to ““Os lobos perdem os dentes, mas nunca a sua natureza.”

  • Anonymous

    Caro Fiódor, este texto é genuinamente bom. Tive de ler umas 3 vezes (e devagar) para perceber (creio eu) tudo ao pormenor. Quando começar a escrever na única (agora revista) continue a assinar fiodor para ser reconhecido pelo menos por uns quantos.

Não hesita!

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