A lógica da existência da República e da Democracia


É sabido por toda a gente que o papão não existe, mas não divulgamos nem falamos sobre a sua inexistência…

Já todos passámos pela experiência quando num grupo de pessoas, amigos, conhecidos, colegas de trabalho, etc… todos sabem uma certa informação, e que todos os elementos desse grupo são conhecedores de tal informação, mas ninguém a comenta por mais polémica ou incrível que seja. Como o gajo que conta aos amigos a última aventura que viveu duma maneira completamente sobre-dimensionada e exaustivamente exagerada, e no entanto, aos amigos, já lhes tinham descrito ao pormenor todas as circunstâncias da experiência, mas estes últimos, calados e bem intensionados, deixam-no falar e deixam-se a ouvir as barbaridades que o amigo transmite.

Atenção, não quero com isto dizer que tudo se deva comentar e nada se deva preservar apenas na nossa mente. Não senhor!, porque há de facto situações em que o mais correcto é não comentar. Devemos ficar satisfeitos quando temos consciência de que temos o conhecimento. Deve ser suficiente. E por isso, quando com o comentar não adicionamos uma mais valia, seja alheia ou à nossa pessoa, não vale a pena desgastarmo-nos.

Dito isto, podíamos agora pôr-nos no papel do político português. Seu discurso, bem estruturado e fluido, dá confiança e esperança, se assim não fosse não podia ser político. Mas a confiança apenas advém do trabalhado paleio e da melodia encantadora que está escondida nas palavras do “parlante”, e tem a particularidade de só ter efeito na classe não política, pois cobra que prova do seu próprio veneno não morre.

Creio que um discurso de verdade, em Portugal, apenas levaria a uma derrota eleitoral!

O povo não quer ouvir as verdades, gosta de ilusões, é avesso à mudança e comodista. É a lógica do “deixa andar que logo se vê como se faz”, e tem também preguiça de ser
autocrítico e portanto gosta é de dizer mal, defender a sua ideologia com base em nada, sem sequer saber do que fala e recusa-se a mudar de opinião e actualizar-se. Parece por vezes que o povo português é tão tacanho que mais parece uma descendência directa de Nietzsche, que não autoriza diferentes opiniões e recusa-se a dar-se com pessoas que põem em causa o seu ponto de vista. Penso então no seguinte: será que podemos censurar os políticos? A ver vamos…

Os políticos, sabendo que o povo não quer ouvir as verdades, tem de mentir e dar a entender que o país não está tão mal como realmente está. O engraçado é que o povo lá no fundo sabe que é um discurso enganoso, mas prefere não chatear-se e não ouvir as verdades puras e duras e entrar numa lógica de mentira contra a própria mente e deixar-se levar. Hipocrisia pura!

Há países em que este fenómeno não existe, como no Reino Unido. Os conservadores que ganharam as eleições apresentaram um projecto de contenção e de medidas, duras é certo, que iriam ser tomadas por necessidade. A Holanda é outro exemplo dum país cujos políticos, os liberais neste caso, apresentaram as suas medidas transparente e verdadeiramente ao povo e ganharam as eleições. Mas nós, junto com os espanhóis franceses e italianos, vivemos nesta ilusão hipócrita em que deixamos os políticos enganar-nos porque queremos é o discurso da mentira, o que soa bem, o que não nos faz ter de mudar de hábitos, mesmo com o nível de dívida que cada português se apresenta actualmente.

Ora esta forma de relação entre poder político e o povo só reforça a desconfiança entre estes dois. Como não querem ouvir as verdades, por definição as pessoas não podem confiar nas mensagens políticas, por isso os políticos não podem dizer a verdade e vendem ilusões.

Actualmente é imperativo que se façam reformas, que se mudem os hábitos,  a educação e a forma de viver dos portugueses e tudo isto tem de vir complementado com um discurso político cru e verdadeiro. Quando passamos por épocas difíceis, o governo e o povo tem de trabalhar em conjunto e em concordância, e não um mentindo ao outro e alimentando a desconfiança entre estes.

Conclusão: se a ética republicana não funciona deste modo, então não tem lógica de     falar-mos em República, porque o que ela representa e o que deveria representar, deste modo nem faz justiça ao nome, é então um mero instrumento de propaganda para usar em datas de eleições.*

 

*Nota: texto “from the vault”

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4 responses to “A lógica da existência da República e da Democracia

  • Pedro Tavares

    100% de acordo com a conclusão, Republica cada vez se trata apenas como “mero instrumento de propaganda”.

  • José Meireles

    isto tem muito que se lhe diga, onde é que posso mandar um coemntário de jeito para aparecer ai como um post caro autor farturaexposta?

  • Pedro Nunes

    Concordo plenamemnte com parte das coisas que diz neste texto, no entanto creio que a frase “Parece por vezes que o povo português é tão tacanho que mais parece uma descendência directa de Nietzsche” é um pouco generalista…

  • ManuelNSanto

    Uma excelente visão do povo e dos politicos da actualidade, há que mudar de mentalidade, sem duvida… Temos tantos e bons exemplos em todo o Mundo!

Não hesita!

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