“Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da Terra teria mudado.”

Após alguns anos a avisar as dificuldades que sentem e que era despercebida por muitos, um bocado ao género da história do Pedro e do lobo, actualmente Bordéus entrou numa crise severa devido a diversos factores. A reivindicação feita com o gasto arado na mão e a famosa baguete rústica debaixo do braço, desta vez é justificável. Estas dificuldades não são daquelas temporadas cíclicas árduas que aparecem de vez em quando para manter a adrenalina a correr e que garantem a eficiência e a qualidade de produção. São profundas dificuldades que vão durar umas quantas vindimas.

A produção desmedida, os preços elevados, a constante, e já reconhecida, qualidade inconsistente que circula pelo mercado internacional, a perda da participação de negócios mais tradicionais no mercado vínico, o decréscimo do consumo interno francês de vinho e o muito fraco marketing apresentado são um alarme.

O marketing de primeiríssima qualidade é exigido nos dias que correm. Dando o exemplo de um senhor do departamento de Marketing dos azeites Gallo: “Produzir vinho sem marketing, é tão eficaz como piscar um olho a uma menina às escuras”.

A burocracia e algumas medidas económicas são companheiros inseparáveis em França. Estas e outras está fazer o ancião dinossauro a demorar a aperceber-se que algo lhe morde a fina cauda.

A razão mais interessante a apontar é a atitude de Bordéus em relação aos seus vinhos e aos outros. Já passou o tempo, especialmente actualmente com a quantidade de oferta alternativa, a globalização e a internet, em que podiam safar-se com a máxima de “o meu vin é meilleur, Bordeaux é o filhedemae, o pessoá tem de boisson vin de Bordeux e são stupíd e ignorants se não o fizerem”. Os “Bordelenses” já tinham sido avisados à uns bons 15 anos da perda de qualidade da produção mas recusaram-se a ouvir as críticas enterrando o trombil no chão tal qual o animal de pescoço comprido de duas patas e parece que estão a tirá-lo cá para fora demasiado tarde. Como se sabe, é muito fácil perder um cliente, e muito difícil de ganhá-lo.

A produção mundial está a crescer abundantemente, a ritmo alarmante até, especialmente no Novo Mundo. Os australianos têm um auténtico lago de vinho, Chile vai pelo mesmo caminho; Itália, Espanha, África do Sul estão a produzir mais do que vendem. E quando a Argentina e, se calhar também o Brasil e o México, vierem em força estaremos perante a eminência do afogamento global. Bem dito aquecimento! E a maioria das plantações na China ainda não começaram a brotar.

A competição só pode aumentar e tornar-se mais feroz. Só a qualidade distinta pode sobreviver a longo prazo e aqui Bordéus tem a total culpa por não ter vindo a fazer o excelente trabalho que lhe devia ser exigido.

No Chile, tal como na Austrália, têm-se especializado em marcas e vinhos acessíveis. Cerca de 90% do vinho vendido pelo mundo não passa dos 10€ ou o equivalente à moeda do país. E não é só o turvo casal da eira lá do sítio! Assim sendo, há um esforço no branding  (enverdando por rótulos simples e apelativos) e na produção de vinhos monocasta em vez da utilização de bagas misteriosas regionais. É mais perceptível um “Albis”, ou mesmo um “Casillero del diablo”,  do que um “Châteu Haut não sei quê”.

Os vinhos mais novos, frutados, frescos, superficiais e mais simples do Novo Mundo são, por vezes, melhor recebidos do que os mais profundos e carrancudos franceses. Contiguamente, informar o consumidor de que este vinho “daqui a uns bons anos será excepcional” quando o que ele realmente quer é levar um agradável vinho adequado ao jantar do próprio dia, causa o chamado “french-não tou com paciência pá tua mariquice óh boinas”.

Ironicamente, França exportou muitos enologistas profissionais para todo o mundo para ajudarem o desenvolvimento da produção de vinho nos cantos da terra.

Há quem pense que a resposta é sentar-se à espera que os mais novos iniciados bebedores de vinho se apercebam que os de Bordéus oferecem uma maior complexidade e uma satisfação mais subtil, mas claro, os do Novo Mundo fecharam o “gap” introduzindo as “reservas” e as “escolha especial” para preservar a fidelidade dos consumidores à marca à medida que estes se tornam mais experientes e têm mais possibilidade de gastarem mais.

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5 responses to ““Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da Terra teria mudado.”

  • Luis

    o bom bordéus vai ser sempre um bom bordéus sem qualquer competição a altura

  • DionísioRosado

    Caro Ricardo, para provas internacionais sugiro a garrafeira do Apolónia (Almancil), caso seja de Lisboa sugiro a Wine o´clock, no Porto a garrafeira Tio Pepe. Depois como dizem os ingleses: let me know.

  • Carlex

    Posso lhe dizer caro ricardo que a australia tem vinhos bem redondos e interessantes. sobretudo os da parte este. pena a questão da rolha…

  • ManuelNSanto

    Interessante. Sinceramente tambem ainda nao tive a oportunidade de degustar qualquer vinho nao nacional, à exceção os franceses e espanhois!

  • ricardo

    pois eu sou grd adepto de muitos dos vinhos sul americanos e da novazelandia.os australianos ainda nao tive o oportunidade de degustar

Não hesita!

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